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A psicologia da inveja


A inveja como uma cobra venenosa

Joseph Epstein brincou que, dos pecados capitais, a inveja é a única que não tem graça nenhuma. A palavra 'inveja' vem do latim 'invidia', que significa 'não ver'. Em uma famosa história de Dante chamada "A Divina Comédia", ele descreve os invejosos como pessoas que usam pesados mantos de chumbo e têm as pálpebras costuradas com arame de chumbo. Isso sugere que a inveja pode nos deixar cegos ou nos levar a uma espécie de cegueira.


Conforme a psicologia, para sentir inveja, três coisas precisam acontecer. Primeiro, encontramos alguém que tenha algo que desejamos - pode ser uma coisa, uma qualidade ou uma conquista que nós não temos. Segundo, queremos ter esse algo para nós mesmos. E terceiro, nos sentimos "pessoalmente magoados". Digo “pessoalmente magoados” porque é esta dimensão pessoal que separa a inveja de sentimentos mais desapegados, como indignação ou injustiça.


Resumindo, inveja é quando sentimos uma dor pessoal porque queremos o que os outros têm. Em um livro chamado "Old Money", Nelson W. Aldrich Jr. descreve essa dor como uma sensação de vazio intenso, como se o coração estivesse sugando o ar. A inveja é feia e vergonhosa, e geralmente é considerada o pior dos pecados. Normalmente, não admitimos que estamos com inveja, às vezes nem para nós mesmos.


Muitas vezes, as pessoas usam a palavra "ciúme" quando, na verdade, estão falando de "inveja". Embora parecidas, são coisas um pouco diferentes. Se a inveja é aquela sensação ruim que temos quando queremos o que os outros têm, o ciúme é quando sentimos medo de perder o que temos para os outros, ou de ter que compartilhar o que temos com eles. A inveja é mais sobre querer algo que não temos, enquanto o ciúme é mais sobre não querer perder o que temos. O ciúme não é só algo que acontece em relacionamentos românticos, pode ser também com amigos, reputação, experiências, e assim por diante. Comparado à inveja, o ciúme é mais fácil de admitir, o que sugere que pode ser o menos problemático dos dois sentimentos.


A inveja é algo profundamente enraizado na mente humana e tem sido comum em todas as épocas e culturas. Desde os tempos antigos, nossos ancestrais tinham medo de despertar a inveja dos deuses, então faziam rituais e oferendas para aplacá-los. Na mitologia grega, a inveja de Hera por Afrodite foi o que desencadeou a Guerra de Tróia. Na Bíblia, Caim matou Abel por inveja.


A inveja costuma surgir quando nos comparamos com os outros, especialmente aqueles com quem sentimos que estamos competindo. Como Bertrand Russell escreveu: "Os mendigos não invejam os milionários, mas invejam outros mendigos que tenham mais sucesso". Hoje em dia, a inveja parece ser mais prevalente do que nunca. Vivemos numa época em que somos encorajados a nos comparar com todos, e a internet e as redes sociais facilitam muito isso, aumentando nossa inveja. Além disso, nossa cultura atual valoriza mais o que é material e tangível do que o que é espiritual e intangível, o que enfraquece a força compensatória que poderia ajudar a controlar esses sentimentos de inveja.


iveja, cappela scrovegni, Giotto
A Inveja (1306). Giotto (c. 1266-1337). Cappela Scrovegni (ou Cappela Arena), Pádua. Afresco, 120 x 55 cm.

A dor da inveja não vem apenas do desejo das coisas boas que os outros têm, mas também dos sentimentos de inferioridade e frustração que surgem quando nós mesmos não as temos.

De forma paradoxal, ficar distraído pela inveja e o medo de despertá-la nos outros nos impede de alcançar nosso potencial máximo. Além disso, a inveja pode nos fazer perder amigos e aliados, e até mesmo prejudicar nossos relacionamentos mais próximos e íntimos. Às vezes, até nos leva a agir mal, como uma criança que quebra um brinquedo que não pode ter. Com o tempo, a inveja pode contribuir para problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e dificuldades para dormir, além de problemas de saúde física. Em resumo, a inveja pode nos consumir completamente.


A inveja também pode dar origem a reações defensivas mais sutis, como ingratidão, ironia, desprezo e esnobismo.

Todas essas reações têm algo em comum: elas usam o desdém para tentar diminuir a sensação de ameaça que sentimos diante das vantagens dos outros. Outra forma comum de nos protegermos da inveja é pensar que se alguém nos inveja, então não temos motivos para sentir inveja deles.


Quando guardamos a inveja dentro de nós, ela pode se transformar em ressentimento. Isso significa que transferimos a dor de nos sentirmos fracassados ou inferiores para alguém, um bode expiatório, como imigrantes ou judeus, e os culpamos por nossos problemas. Esse ressentimento pode levar a perseguições e, em alguns casos extremos, até sacrifícios, como o de Jesus na cruz.


As pessoas costumam esconder muito bem a inveja. No entanto, às vezes ela pode ser revelada através de comportamentos indiretos, como sentir prazer na desgraça alheia, o que é chamado de Schadenfreude, uma palavra em alemão que significa "alegria prejudicial". Esse sentimento muitas vezes é explorado pelos meios de comunicação, que adoram contar histórias de celebridades em decadência, políticos em apuros e assim por diante. Embora o termo seja moderno, tendo sido usado pela primeira vez em alemão nos anos 1740, a emoção que ele descreve existe há muito tempo. Na Retórica, Aristóteles a chamava de epikhairekakia, uma palavra difícil de pronunciar, mas que significa basicamente a mesma coisa.


Mas, independentemente de como a chamamos, o Livro dos Provérbios nos adverte claramente sobre isso: "Não te alegres quando o teu inimigo cair, e não se alegre o teu coração quando ele tropeçar; para que o Senhor não veja isso, e isso lhe desagrade, e desvie dele a sua ira." Em outras palavras, não devemos nos alegrar com o infortúnio alheio.


Como o próprio nome sugere, o problema fundamental da inveja é que ela nos impede de ver o quadro completo. Quando estamos dominados pela inveja, é como se estivéssemos navegando em um navio usando lentes distorcidas de um telescópio invertido, em vez de seguir as estrelas no céu. O navio acaba indo de um lado para o outro e corre o risco de ser destruído por rochas, recifes ou tempestades. A inveja, ao nos frustrar, apenas alimenta mais inveja, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar.


Tem sido discutido que a inveja, muitas vezes disfarçada como indignação ou compaixão, pode ser uma força para mudanças sociais que promovem a democracia e a igualdade. Essa ideia sugere que a inveja pode impulsionar um desejo por uma sociedade mais justa. Por exemplo, o comunismo, que busca eliminar a inveja ao criar uma sociedade igualitária. No entanto, na prática, aqueles que vivem sob regimes comunistas muitas vezes se tornam ainda mais invejosos, criticando os outros por qualquer pequena vantagem percebida. Da mesma forma, assim como a inveja alimenta o comunismo, a ganância impulsiona o capitalismo.


Então, como lidar com a inveja? Quando sentimos inveja do carro de couro com teto solar com a ultima tecnologia do nosso vizinho, muitas vezes ignoramos ou subestimamos os esforços e sacrifícios necessários para adquiri-lo e mantê-lo, sem mencionar os riscos e inconvenientes de possuir um carro desse tipo.


Na vida, nossa riqueza não está apenas no que possuímos, mas também, e principalmente, no que não temos. Às vezes, esquecemos que algumas pessoas podem ter sacrificado muito de sua própria felicidade pelo que chamamos de "sucesso". Eles podem estar tão esgotados que mal têm energia para desfrutar das coisas boas que conquistaram. Essas pessoas podem parecer bem-sucedidas por fora, mas por dentro estão sem vitalidade. Em vez de invejá-las, é importante sentir compaixão por elas. Para controlar a inveja, precisamos mudar nossa perspectiva e lembrar constantemente do que realmente importa na vida.


E quanto àqueles que têm riqueza sem precisar se esforçar ou sacrificar? Na tradição hindu, essas pessoas "sortudas" simplesmente estão colhendo os frutos das boas ações que fizeram em vidas passadas, incluindo as ações de seus pais, que os criaram e educaram, e dos avós, que criaram e educaram seus pais, e assim por diante.


Em certas situações, como quando alguém ganha na loteria, a sorte parece ser totalmente sem merecimento, o que pode aumentar ainda mais nossa inveja. No entanto, é próprio da natureza da sorte se equilibrar com o tempo, então não faz sentido ficar com inveja o tempo todo. A longo prazo, geralmente conseguimos aquilo que merecemos - e então, mais cedo ou mais tarde, a sorte acaba para todos, não importa quem sejam.


A vida sempre nos oferece algo, mesmo que não seja o que vemos nos anúncios publicitários. Mas quando nos deixamos levar pela inveja, só pensamos no que nos falta, e não valorizamos o que já temos e poderíamos apreciar. Cultivar sentimentos como gratidão e humildade pode nos ajudar a enxergar as coisas de forma mais equilibrada e a nos proteger contra a inveja.


No final das contas, a inveja se resume à nossa atitude. Quando encontramos alguém que é melhor ou mais bem-sucedido que nós, podemos reagir de diferentes maneiras: podemos ficar indiferentes, felizes, admirados, invejosos ou inspirados a nos esforçar mais. A inveja é aquela sensação ruim que temos quando vemos alguém com algo que desejamos, enquanto a inspiração é quando sentimos vontade de ter o que os outros têm. Essa diferença é importante.


Se deixamos a inveja nos dominar, perdemos a chance de aprender com aqueles que são mais experientes ou talentosos do que nós, e ficamos presos no mesmo lugar. Mas, se nos inspiramos, podemos pedir para aprender e, com isso, melhorar nossa própria situação. Enquanto a inveja não nos leva a lugar nenhum, podendo até nos prejudicar, a inspiração nos impulsiona a crescer e, ao crescer, conquistamos as coisas que antes nos deixavam invejosos.


Na Retórica, Aristóteles explica que sentimos emulação¹ principalmente quando acreditamos que merecemos algo bom que ainda não temos, e esse sentimento é ainda mais forte em pessoas com um caráter honrado ou nobre.


Em resumo, se reagimos com inveja ou emulação depende muito da nossa autoestima.


¹ Sentimento ou desejo de se igualar ou imitar alguém que se admira, especialmente em relação a suas conquistas, habilidades ou qualidades. É uma forma de inspiração que nos leva a querer alcançar o mesmo nível de sucesso ou excelência que vemos em outra pessoa. Ao contrário da inveja, que envolve ressentimento em relação ao sucesso alheio, a emulação é motivada pelo desejo de aprender e melhorar, buscando modelos positivos para seguir.



Esta postagem não substitui a psicoterapia.

Procure um profissional da área para ajudá-lo.


Ivana Siqueira

Psicóloga Clínica

CRP 05|40028


Rio de Janeiro - RJ

Atendimento presencial e online

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